Cerco de Sarajevo

Cerco de Sarajevo
Guerra da Bósnia

No sentido horário a partir do canto superior esquerdo:
Veículo civil após ser alvejado com armas; Forças da UNPROFOR na cidade; Prédio governamental atingido por bombardeio de tanques; Ataque aéreo dos EUA em posições VRS; Visão geral da cidade em 1996; Soldados VRS antes de uma troca de prisioneiros.
Data 5 de abril de 1992 – 29 de fevereiro de 1996
(3 anos, 10 meses, 3 semanas e 3 dias)
Local Sarajevo, Bósnia e Herzegovina
Desfecho Fim da guerra e do cerco através do Acordo de Dayton
Beligerantes
Bósnia e Herzegovina (1992–96)
OTAN OTAN (Operação Força Deliberada) (1994–96)
 Iugoslávia (1992)
República Srpska (1992–96)
Comandantes
Bósnia e Herzegovina Alija Izetbegović
Bósnia e Herzegovina Jovan Divjak
Bósnia e Herzegovina Mustafa Hajrulahović Talijan
Bósnia e Herzegovina Vahid Karavelić
Bósnia e Herzegovina Nedžad Ajnadžić
OTAN Leighton W. Smith
República Socialista Federativa da Iugoslávia Milutin Kukanjac (março–julho de 1992)
Radovan Karadžić
Ratko Mladić
Tomislav Šipčić (julho–setembro de 1992)
Stanislav Galić (setembro de 1992–agosto de 1994)
Dragomir Milošević (agosto de 1994–fevereiro de 1996)
Unidades
Exército da República da Bósnia e Herzegovina
Operação Força Deliberada:
Estados Unidos Força Aérea dos Estados Unidos
Alemanha Força Aérea Alemã
Exército Popular Iugoslavo (1992)
Exército da República Srpska (1992-1996)
Forças
Bósnia e Herzegovina 34 931 soldados[1] 13 000 soldados
Baixas
3 587 mortos[2] 2 241 soldados mortos ou desaparecidos[3]
Civis: 11 541 mortos, 56 000 feridos[4]

O cerco de Sarajevo foi o mais longo cerco da história da guerra moderna,[5][6] tendo sido realizado pelas forças sérvias da autoproclamada República Srpska e do Exército Popular Iugoslavo. Durou de 5 de abril de 1992 a 29 de Fevereiro de 1996, durante a Guerra da Bósnia, entre as mal equipadas Forças de Defesa da Bósnia e Herzegovina, o Exército Popular Iugoslavo e o Exército da República Srpska, situados nas colinas que rodeiam a cidade.

Após a Bósnia e Herzegovina fazerem sua declaração de independência da República Socialista Federativa da Iugoslávia, os Sérvios Bósnios, cujo objetivo estratégico era criar um novo Estado sérvio da República Srpska, o qual incluiria parte do território da Bósnia e Herzegovina, cercaram Sarajevo com uma força de cerca de 18 000[7] homens. Baseados nas colinas circundantes, assaltaram a cidade com armamento pesado, que incluía artilharia, morteiros, tanques, canhões antiaéreos, metralhadoras pesadas, lançadores múltiplos de foguetes, mísseis lançados de aeronaves e rifles sniper.[7] Em 2 de maio de 1992, os sérvios bloquearam a cidade. As forças de defesa do governo bósnio, que estavam muito mal equipadas, foram incapazes de romper o cerco.

Estima-se que mais de 12 000 pessoas foram mortas e 50 000 feridas durante o cerco, sendo 85% das vítimas civis. Por causa dessas mortes e da migração forçada, em 1995, a população da cidade caiu para 334 663 pessoas (64% da população de antes da guerra).[8]

Em janeiro de 2003, a Câmara de Julgamento do Tribunal Penal Internacional para a ex-Iugoslávia condenou o primeiro comandante do Corpo de Sarajevo Romanija, Stanislav Galić, pelas campanhas de terror, que incluíram bombardeios e franco-atiradores, contra Sarajevo, principalmente o massacre do mercado Markale. O General Galić foi condenado à prisão perpétua por crimes contra a humanidade durante o cerco. Em 2007, o general sérvio Dragomir Milosevic, que havia substituído Galić no cargo de comandante do Corpo de Sarajevo Romanija, foi considerado culpado dos mesmos crimes e condenado a 33 anos de prisão. A Câmara de Primeira Instância concluiu que o mercado Markale foi atingido em 28 de Agosto de 1995 por um morteiro de 120 mm disparado a partir de posições do Corpo de Sarajevo Romanija.

Antecedentes

Ver artigo principal: Dissolução da Iugoslávia

Desde a sua criação após a Segunda Guerra Mundial, o governo da República Socialista Federativa da Iugoslávia manteve uma estreita vigilância sobre o sentimento nacionalista entre os vários grupos étnicos e religiosos que compunham o país, pois isso poderia ter levado ao caos e à dissolução do Estado. Quando que Josip Broz Tito morreu em 1980 — antigo líder da Iugoslávia — essa política de contenção sofreu uma reversão drástica. O nacionalismo experimentou um renascimento na década seguinte, após retaliações em Kosovo.[9] Enquanto o objetivo dos sérvios nacionalistas era centralização de uma Iugoslávia dominada pelos sérvios, outras nacionalidades na Iugoslávia aspiravam à federalização e à descentralização do estado.[10][11]

Em 18 de novembro de 1990, as primeiras eleições parlamentares multipartidárias foram realizadas na Bósnia e Herzegovina — com um segundo turno em 2 de dezembro.[12][13] Eles resultaram em uma assembleia nacional dominada por três partidos de base étnica, que formaram uma coalizão solta para expulsar os comunistas do poder.[14] As subsequentes declarações de independência da Croácia e Eslovênia e a guerra que se seguiu colocaram a Bósnia e Herzegovina e seus três povos constituintes em uma posição incômoda. Uma divisão significativa logo se desenvolveu sobre a questão de ficar com a federação iugoslava — predominantemente favorecida entre os sérvios; ou buscar a independência — predominantemente favorecida entre bósnios e croatas.[15] Ao longo de 1990, o Plano RAM foi desenvolvido pela Administração de Segurança do Estado (SDB ou SDS) e um grupo de oficiais sérvios selecionados do Exército Popular Iugoslavo (JNA) com o propósito de organizar sérvios fora da Sérvia, consolidando o controle do recém-criado Partido Democrático Sérvio (SDP), e o pré-posicionamento de armas e munições.[nota 1][17][18] O plano pretendia preparar a estrutura para uma terceira Iugoslávia na qual todos os sérvios com seus territórios viveriam de forma unificada no mesmo estado. Ciente desta intenção, o governo da Bósnia aprovou o "Memorando sobre Soberania" através de uma ação para reabrir o Parlamento — após Momčilo Krajišnik tê-lo fechado e os políticos sérvios terem saído.[19] Com isso, o governo da Bósnia e Herzegovina conseguiu declarar independência da Iugoslávia em março de 1992, seguido pelo estabelecimento da Assembleia Nacional da Sérvia pelos sérvios da Bósnia.[nota 2][21]

Barbárie

Um dos vários sinais de alerta em Sarajevo, com o seguinte aviso: Pazi, Snajper

Na segunda metade de 1992 e primeira metade de 1993, ocorreu o auge do cerco de Sarajevo, com atrocidades acometidas durante combates intensos. Forças sérvias fora da cidade bombardearam continuamente os defensores do governo. Dentro da cidade, os sérvios controlavam a maioria das principais posições militares e o fornecimento de armas. Com atiradores se posicionando na cidade, cartazes escrito Cuidado, Sniper!,[nota 3] tornaram-se comuns em zonas de conflitos, com algumas ruas conhecidas como "becos de atiradores".[23] Os assassinatos de Admira Ismić e Boško Brkić — casal bósnio-sérvio que tentaram cruzar as linhas — por franco-atiradores, tornaram-se símbolo de sofrimento na cidade e tema do documentário Romeo and Juliet in Sarajevo (1994), não se sabendo ao certo a origem do(s) atirador(es).[24][25]

Nas áreas controladas pelos bosníacos em Sarajevo, os serviços públicos entraram em colapso e a taxa de criminalidade disparou. Durante o primeiro ano do cerco, a 10.ª Divisão de Montanha da ARBiH, liderada pelo comandante Mušan Topalović, engajou-se em uma campanha de execuções em massa de civis sérvios que ainda viviam em suas áreas controladas. Muitas das vítimas foram transportadas para o fosso de Kazani, onde foram executadas e enterradas em uma vala comum.[26]

Notas

  1. Os membros do parlamento sérvio, consistindo principalmente de membros do SDP, abandonaram o parlamento central em Sarajevo e formaram a Assembleia do Povo Sérvio da Bósnia e Herzegovina em 24 de outubro de 1991, que marcou o fim das três coalizões étnicas que governaram após as eleições de 1990. Posteriormente, em janeiro de 1992, foi proclamada a Republika Srpska.[16]
  2. A declaração da soberania da Bósnia foi seguida de um referendo pela independência que durou de fevereiro a março de 1992 — boicotado pela grande maioria dos sérvios da Bósnia. A participação no referendo foi de 63,4% com 99,7% dos eleitores optando pela independência.[20]
  3. Originalmente, escrito: Pazi, Snajper!.[22]

Referências

  1. Čekić, Smail. Monografija 1. Korpusa (PDF). Bosnia: [s.n.] p. 392 
  2. Čekić, Smail. Monografija 1. Korpusa (PDF). Bosnia: [s.n.] p. 392 
  3. «Ljudski gubici u Bosni i Hercegovini 91–95 – Sarajevo». The Research and Documentation Center (RDC). p. 16. Consultado em 11 de maio de 2010 
  4. Cherif Bassiouni (27 de maio de 1994). «Final report of the United Nations Commission of Experts established pursuant to security council resolution 780». United Nations. Consultado em 10 de maio de 2010 
  5. Goulding, Daniel J. (2002). Liberated Cinema: The Yugoslav Experience, 1945-2001 (em inglês). [S.l.]: Indiana University Press 
  6. «The Times & The Sunday Times». www.thetimes.co.uk (em inglês). Consultado em 28 de fevereiro de 2021 
  7. a b «Times Online». Consultado em 21 de fevereiro de 2021 
  8. Historia de Sarajevo
  9. Pavkovic 1996, p. 85.
  10. Krieger 2001, p. 476.
  11. Crnobrnja 1996, p. 107.
  12. «Chronology: 1990-1995». The New York Times. Consultado em 21 de fevereiro de 2021 
  13. Nohlen & Stöver 2010, p. 330.
  14. Bideleux & Jeffries 2007.
  15. John R. Lampe. «Bosnian War European history [1992–1995]». Britannica. Consultado em 21 de fevereiro de 2021 
  16. «About National Assembly». National Assembly of the Republic of Srpska. Consultado em 21 de fevereiro de 2021 
  17. Abazović, Dino; Ćurak, Nerzuk; Seizović, Zarije;; et al. «Ethnic Mobilization in Bosnia and Herzegovina» (pdf). Eurac Research: 16. Consultado em 21 de fevereiro de 2021 
  18. Judah 2008, p. 273.
  19. Tuathail, Toal & Dahlman 2011, p. 108.
  20. «Report: The Referendum on Independence in Bosni-Herzegovina». Consultado em 21 de fevereiro de 2021. Cópia arquivada em 29 de fevereiro de 1992 
  21. Lukic & Lynch 1996, p. 204.
  22. «20 Years Later: The Bosnian Conflict in Photographs». Pinterest. Consultado em 15 de março de 2021 
  23. Ian Traynor, Maggie O'Kane (13 de julho de 2018). «The siege of Sarajevo - archive, 1993». The Guardian. Consultado em 15 de março de 2021 
  24. «'Only a bullet' could separate them». Pinterest. 10 de abril de 1996. Consultado em 15 de março de 2021 
  25. Andy Eckardt, Vladimir Banic (28 de fevereiro de 2017). «Bosnian War Anniversary: Sarajevo's 'Romeo and Juliet' Still Resonate». NBC. Consultado em 15 de março de 2021 
  26. Chris Hedges (12 de novembro de 1997). «Postscript to Sarajevo's Anguish: Muslim Killings of Serbs Detailed». The New York Times. Consultado em 15 de março de 2021 

Bibliografia

  • Bideleux, Robert; Jeffries, Ian (2007). The Balkans: A Post-communist History. [S.l.]: Routledge. 620 páginas. ISBN 9780415229623 
  • Crnobrnja, Mihailo (1996). The Yugoslav Drama. [S.l.]: McGill-Queen's Press – MQUP. 304 páginas. ISBN 9780773514294 
  • Judah, Tim (1º de outubro de 2008). The Serbs: History, Myth and the Destruction of Yugoslavia. [S.l.]: Yale University Press. 368 páginas. ISBN 9780300147841 
  • Krieger, Joel (2001). The Oxford Companion to Politics of the World 2.ª ed. [S.l.]: Oxford University Press. ISBN 9780195117394 
  • Lukic, Renéo; Lynch, Allen (1996). Europe from the Balkans to the Urals: The Disintegration of Yugoslavia and the Soviet Union. [S.l.]: SIPRI. 436 páginas. ISBN 9780198292005 
  • Nohlen, Dieter; Stöver, Philip (2010). Elections in Europe: A Data Handbook. [S.l.]: Nomos. 2070 páginas. ISBN 9783832956097 
  • Pavkovic, Aleksandar (1996). The Fragmentation of Yugoslavia: Nationalism in a Multinational State. [S.l.]: Springer. 244 páginas. ISBN 9780230375673 
  • Tuathail, Gearóid Ó; Toal, Gerard; Dahlman, Carl T. (16 de fevereiro de 2011). The Fragmentation of Yugoslavia: Nationalism in a Multinational State. [S.l.]: Oxford University Press. 463 páginas. ISBN 9780199730360 

Ligações externas

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